Introdução
Após muito tempo, nos reencontramos em nossas leituras. Infelizmente, não pude agraciá-los com meus textos, pois meu computador resolveu, animosamente, quebrar. Com isso, muitas datas simbólicas foram perdidas, assim como diversos posts — 31 de outubro e 25 de dezembro, por exemplo. Como infelizmente não farei publicações sobre esses temas — afinal, já não faria sentido — tentarei, a partir de hoje, postar com mais frequência.
Aos poucos que leem este blog, quero lembrá-los de seu intuito. Não sou especialista em assunto algum; sei muito sobre nada. Este blog existe apenas para a aplicação de conhecimento e para gerar debates produtivos (além de melhorar e treinar retórica e escrita). Com isso em mente, quero tratar de dois temas correlacionados: os muçulmanos adoram o mesmo Deus que nós? e responderei o comentario de um polemista muçulmano
O que é Deus?
Antes de responder se adoram ou não, é necessário enfrentar uma definição difícil. Afinal, simplesmente dizer “eu adoro a Deus” não significa que, de fato, alguém o adore corretamente, pois Deus é a verdade, a razão do ser; isto é, Deus é uma persona — no sentido de poder ser reconhecido.
Com essa premissa, podemos afirmar, historicamente, que sim: os muçulmanos adoram aquele Deus que se revelou a Moisés e abriu o Mar Vermelho, o Deus que criou Adão à sua imagem e semelhança, o Deus da promessa feita a Abraão. Até aqui, há continuidade.
Entretanto, assim como Deus é uma persona revelada, Ele também é uma essência imutável. Deus é aquilo que é por Si mesmo e em plenitude. Sendo assim, Deus não pode ser parcialmente adorado. É justamente nesse ponto que as tradições judaica e muçulmana — cuja definição arcaica de Deus é a mesma — e a tradição cristã se separam frontalmente.
Como ambas reconhecem os elementos tratados até aqui, afirmo, da perspectiva cristã (ao menos na minha visão), que não é possível dizer que adoram o mesmo Deus que nós. Desenvolverei isso a seguir.
Adoração e a unicidade divina
Para que, da perspectiva cristã, possamos dizer que Deus é verdadeiramente adorado por outras tradições monoteístas, é necessário definir o conceito de latria — algo que já é difícil de delimitar, especialmente diante da diversidade interna da tradição cristã.
A latria pode ser compreendida de dois modos principais: o modo oral, no qual há a intenção explícita de adorar, envolvendo um sacrifício espiritual (ou literal, no caso dos católicos romanos); e o modo gestual, manifestado por atos de adoração como incensos, orações, prostrações e outros gestos cultuais. Ambas as formas são sempre direcionadas a uma essência divina que é una.
Essa unicidade está profundamente enraizada na tradição judaico-cristã:
“Bendito seja o Senhor, o Deus Altíssimo, único Deus.” (Jubileus 12:19);
“O Altíssimo… único e eterno Deus.” (Testamento de Levi 3:8);
“Eu sou o primeiro e eu sou o último, e fora de mim não há Deus.” (Isaías 44:6).
Sabendo, então, que Deus é uno, podemos perguntar, da perspectiva cristã: estariam judeus e muçulmanos adorando uma essência divina que, embora una, é compreendida de maneira incompleta?
A Trindade e a impossibilidade da adoração parcial
Como cristãos, confessamos a Santíssima Trindade, na qual existem três pessoas coeternas: o Pai, aquele que gera eternamente o Filho e ocupa a primazia na hierarquia divina; o Filho, Jesus Cristo, eternamente gerado pelo Pai, que se fez carne e nasceu da Virgem Maria; e o Espírito Santo, o Consolador, que procede do Pai (e do Filho).
Essas três pessoas coexistem na mesma essência una e indivisível. Deus é trino por sua própria completude. Assim, não há possibilidade de verdadeira latria divina quando uma das pessoas do Deus completo é negada.
O próprio Jesus Cristo afirma isso de maneira direta:
“Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.” (João 14:6)
Essa afirmação não é meramente ética, mas soteriológica. Se ninguém vai ao Pai — Deus pleno — senão por meio do Filho — também Deus pleno — então não há adoração verdadeira sem a mediação de Jesus Cristo. Não é possível, portanto, adorar a Deus negando uma das pessoas que constituem Sua identidade completa. Nesse sentido, não se pode falar em adoração a “parte” de Deus, ainda que seja o Deus uno afirmado por judeus e muçulmanos.
Conclusão
Creio, assim, que não é possível afirmar que outras tradições adoram o mesmo Deus no sentido pleno confessado pelo cristianismo. Digo isso sem ainda recorrer a argumentos morais, pois a moral divina apresentada no judaísmo e no islamismo não corresponde à moral revelada por Jesus Cristo na Nova Aliança.
Resposta a Muçulmano
Porém, fui surpreendido com uma resposta em forma de diatribe histérica, à qual prometi responder. Eis o post:
"O mano cita o Evangelho de João, datado de aprox. 89 a 96 dc como se fosse algo que Jesus falou de fato. O evangelho mais tardio de todos, escrito quase 70 anos depois da morte de Jesus, em uma época em provavelmente todos os apóstolos já estavam mortos, e o homem acha que isso já é suficiente, e que há provas contundentes de que ele falou isso de verdade.
Difícil lidar com fariseu.
E antes que reclame que eu chamei Jesus de ‘profeta’: a tua própria Bíblia fala várias vezes que ele era um profeta, burro.
Antes que diga que a Bíblia NÃO fala que ele era ‘apenas’ um profeta. Sim, eu sei, mas chamá-lo de profeta não é um erro, como você parece querer dar a entender.
Até porque a própria Bíblia se refere a ele várias vezes como um profeta.
O apelo à antiguidade, dizendo que o profeta Muhammad veio séculos depois, sóconfirma o meu ponto.
Da mesma forma que, quando o profeta Jesus veio, os fariseus também utilizaram a falácia da antiguidade contra ele, hoje os fariseus modernos utilizavam esse MESMO argumento contra o profeta Muhammad.
Jesus teve que lidar com os fariseus de sua época. Muhammad também teve que lidar com os fariseus da época dele.
Hoje, nós muçulmanos temos que lidar com os fariseus da NOSSA época.
Isso só comprova o meu ponto.
Vade Retro, Fariseu."
Responderei ponto a ponto da tentativa de argumento, paragrafo por paragrafo:
Resposta a Muçulmano
Parágrafo 1
“O mano cita o Evangelho de João… escrito quase 70 anos depois… os apóstolos já estavam mortos…”
Sua objeção ignora completamente como a historiografia antiga funciona.
Se descartarmos João por ter sido escrito algumas décadas após os fatos, então teremos que jogar no lixo Alexandre, o Grande (cujas principais fontes são de séculos depois) e também o próprio Muhammad, já que a Sira de Ibn Ishaq foi escrita mais de 100 anos após sua morte. Espero que você não queira puxar esse fio — porque ele arrebenta do seu lado primeiro.
Além disso, o fragmento P52 comprova que o Evangelho de João já circulava no início do século II, o que pressupõe uma composição ainda no final do século I. Não estamos falando de um texto que “apareceu do nada”, mas de um documento já amplamente difundido.
Quanto ao argumento de que “os apóstolos já estavam mortos”, isso não passa de suposição conveniente. A tradição cristã primitiva — Policarpo e Irineu, ambos ligados à geração apostólica — afirma que João viveu até idade avançada em Éfeso, justamente para combater heresias iniciais. Ou seja: o João que você chama de “tardio” existe precisamente porque ainda havia quem pudesse confirmar ou refutar seu testemunho.
Parágrafo 2
“Difícil lidar com fariseu.”
Rótulos não são argumentos — são atalhos para quem ficou sem eles.
Historicamente, o farisaísmo se caracterizava por legalismo rigoroso e pela negação da natureza divina do Messias. Curiosamente, quem insiste que a salvação depende da submissão estrita a leis rituais e rejeita a divindade de Cristo está muito mais próximo da mentalidade farisaica do que o cristão que confessa que a salvação vem pela promessa divina cumprida no Messias.
Se isso é “farisaísmo”, então os fariseus mudaram bastante de endereço.
Parágrafos 3 e 4
“A Bíblia fala várias vezes que Jesus era um profeta… chamá-lo de profeta não é um erro…”
Ninguém aqui nega que Jesus foi chamado de profeta.
O problema não é chamá-lo de profeta — o problema é reduzi-lo a isso contra o próprio texto.
Na Escritura, Cristo reúne as funções de Profeta, Sacerdote e Rei, mas as transcende ao ser chamado de Filho Unigênito (Jo 3:16) e confessado como “Senhor meu e Deus meu” (Jo 20:28). E o próprio Jesus não deixa espaço para essa redução confortável quando declara:“Antes que Abraão existisse, EU SOU” (Jo 8:58).
Isso não é linguagem profética comum. É autoidentificação com o Nome divino.
Chamá-lo apenas de profeta não é heresia por excesso — é erro por amputação.
Parágrafo 5
“O apelo à antiguidade só confirma o meu ponto.”
Não. Aqui há uma confusão básica entre antiguidade e continuidade.
O ponto não é simplesmente “quem veio primeiro”, mas quem está organicamente ligado à revelação anterior. O Messias foi anunciado por séculos dentro da linhagem de Isaque e Davi. O Islã surge 600 anos depois, sem qualquer profecia anterior que o antecipe, tentando reinterpretar a história de um povo ao qual não pertencia.
O que você chama de “apelo à antiguidade” é, na verdade, apelo à fidelidade documental: testemunhos mais próximos dos fatos têm maior peso histórico do que revelações tardias que contradizem as testemunhas oculares.
Parágrafos 6 e 7
“Os fariseus usaram a falácia da antiguidade contra Jesus… hoje fazem o mesmo com Muhammad.”
Isso é uma falsa equivalência clássica.
Os fariseus não rejeitaram Jesus porque Ele era “novo”, mas porque Ele afirmava ser Deus (João 10:33). Jesus não contradisse os profetas anteriores; Ele cumpriu o que eles anunciaram.
Além disso, Jesus sustentou Suas afirmações com:
-
milagres públicos,
-
autoridade reconhecida até por adversários,
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e a Ressurreição, testemunhada por centenas.
A tentativa de colocar Muhammad como sucessor de Jesus falha porque não há qualquer confirmação nas Escrituras que o antecederam. O paralelo morre antes de terminar a frase.
Parágrafos 8 e 9
“Hoje, nós muçulmanos temos que lidar com os fariseus da nossa época.”
Ser questionado não é sinal de verdade — é sinal de que sua tese é frágil o suficiente para ser questionada. Repetir uma conclusão baseada em premissas falsas não a torna verdadeira, apenas mais barulhenta.
Os apóstolos morreram afirmando a divindade de Cristo. Se João fosse uma invenção tardia, não haveria motivo para uma Igreja perseguida aceitá-lo unanimemente como canônico, enquanto rejeitava dezenas de escritos gnósticos muito mais convenientes e “espirituais”.
Parágrafo 10
“Vade Retro, Fariseu.”
Quando o argumento histórico acaba, entra o latim performático.
Mas insultos não refutam documentos, nem slogans anulam testemunhos.
A verdade permanece incômoda:
Cristo não é apenas um profeta reinterpretado por um livro posterior, mas o Verbo que estava com Deus e era Deus (João 1:1).
E isso, convenhamos, explica bem a irritação.
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