
Introdução ao tema
Eu estava normalmente vagando por essa maravilhosa rede social—o TikTok—E me deparei com esse vídeo aqui (Segue aqui o video sobre o tema).
Logo de cara, qualquer um que tenha conhecimento básico sobre a Reforma Protestante e Lutero percebe as mentiras desse vídeo. Analisando, ele não me parece uma pessoa desonesta, me parece alguém verdadeiro, porém, esta infectado pelo esgoto das mentiras Católicas sobre seu maior algoz, Martinho Lutero
Para os preguiçosos, já deixei separado os temas que ele aborda levemente no vídeo. Não estou julgando a falta de profundidade, é de se esperar em um vídeo para esta plataforma de vídeos curtos
- Lutero nega a presença do corpo de Cristo na ceia
- Condena a Sola Fide
- Lutero retirou a epistola de Tiago da sua primeira tradução a bíblia
- Lutero alterou o texto de Romanos 3
Como são acusações conhecidas e infundadas, irei me aventurar em responder cada uma. Não sou qualquer especialista ou qualquer coisa do tipo. Sou apenas um Protestante que busca se aproximar cada vez mais da verdade das escrituras
Lutero negou a presença do corpo de Cristo na ceia?
Esse ponto é confuso, o autor do vídeo da a entender que Lutero negou a presença real, afirmar isso seria algo escabroso, pois os Luteranos (seguidores da teologia de Lutero), Junto a alas Anglicanas, são as únicas vertentes Protestantes que defendem o corpo literal de Cristo na Eucaristia. Lutero defendia o conceito da União Sacramental, Onde o corpo de Cristo esta verdadeiramente presente junto ao pão e o vinho:
“Quem toma este pão, toma o corpo de Cristo; e quem come este pão, come o corpo de Cristo; quem esmaga o pão com os dentes ou com a língua, esmaga com os dentes ou com a língua o corpo de Cristo.”
— Comentário de Lutero sobre 1 Coríntios 11:27
Mas, analisando seriamente, o autor do vídeo parece dizer que foi uma consequência da Reforma de Lutero, isto sou eu tentando analisar tecnicamente um trecho de pouquíssimos segundos.
O primeiro defender uma tese diferente dessa foi Eurico Zwinglio, ele defendia que a Eucaristia seria um "ritual memorial", uma memoria do sacrifício de Cristo na cruz
“A Ceia do Senhor é um memorial do sacrifício de Cristo, instituído por Ele para que, ao tomarmos o pão e o vinho, recordemos Sua morte e proclamemos Sua obra redentora.”
— Confissão sobre a Santa Ceia de Cristo
“As palavras de Cristo 'Isto é o meu corpo' devem ser entendidas como 'isto significa o meu corpo', indicando que o pão é um símbolo do corpo de Cristo.”
— Correspondência com Matthäus Alber
E mais tarde, este conceito foi redefinido por João Calvino, defendendo uma linha media entre eles, que Cristo estaria espiritualmente na Eucaristia:
“Nós não recebemos o corpo de Cristo com os olhos, mas com a fé; assim, no sacramento, o alimento espiritual é dado aos nossos corações.”
— Institutas da Religião Cristã, Livro IV, Cap. XVII
Vimos que o descolamento da presença real do corpo com o pão e o vinho não partiu de Lutero. Isso é tão verdade que o próprio Lutero condenou essa ideia no debate de Marburgo (1529) contra Zwinglio.
Seria culpa de Lutero por outro Reformador ter uma opinião diferente? Lutero não é um sumo pontífice, a Reforma nunca foi sobre isso, mas sim, um resgate ao evangelho puro e simples. A opinião de outros Reformadores não faz jus a Lutero, mas sim a eles próprios.
Em resumo, Lutero nunca negou a presença real de Cristo na Eucaristia; ele defendia a união sacramental, onde o corpo e sangue de Cristo estão realmente presentes no pão e no vinho. Divergências sobre a interpretação da Ceia surgiram com outros reformadores, como Zwinglio e Calvino, mas isso não pode ser atribuído a Lutero. A Reforma não buscava uniformidade absoluta em todos os detalhes, mas o retorno ao evangelho puro e à fé fundamentada na Escritura. Lutero permanece, portanto, firme em sua posição sobre a presença real, enquanto o desenvolvimento de outras visões reflete a riqueza e diversidade do pensamento reformado.
Sola Fide leva muitos ao Inferno?
Essa acusação não ter qualquer base, justamente porque ela não pode ser comprovada. A tese defendida é que, na opinião dele, muitos Protestantes levam uma vida de pecados e não mudam, justamente por crer que só a sua fé vai salva-lo
Essa argumentação é tão infundada, que pode ser usada contra eles mesmos. A confissão então, poderia sim levar vários ao inferno, pois por achar que já estão limpos ao se confessar, continuam pecando e levando a vida de pecados até a próxima quarta-feira para os confessa-los novamente, e nós todos sabemos o quão isso é real. Então, atacar o termo por seu uso/entendimento equivocado é tolice.
O Sola Fide não é sobre não realizar obras, mas sim, que estas obras não são barganhas para nossa salvação. Diz Lutero:
“Não são as obras que nos justificam diante de Deus, mas a fé verdadeira. Contudo, a fé que não produz obras é morta.”
— Comentário sobre Romanos 1:17
“As boas obras são como frutos pendurados na videira da fé; ninguém os planta sozinho, mas surgem da raiz verdadeira, que é Cristo.”
Ou seja, o Sola Fide não significa “fazer o que der na telha e depois só acreditar que está salvo”. Lutero deixa claro que a fé verdadeira sempre produz frutos. Como Tiago diz:
“Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma.”
— Tiago 2:17
Quem realmente crê vai desejar viver de acordo com o evangelho, não para “ganhar pontos” com Deus, mas porque a fé transforma o coração. Paulo também reforça:
“Porque somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas.”
— Efésios 2:10
A diferença está na motivação: não é o medo do castigo nem a esperança de recompensa, mas a gratidão e confiança em Deus. A fé nos justifica, mas uma fé viva se manifesta em obras. Como ainda diz Tiago:
“Mostra-me a tua fé sem obras, e eu, pelas minhas obras, te mostrarei a fé.”
— Tiago 2:18
Portanto, acusar o Sola Fide de “liberar” o pecado é inverter completamente o conceito. Lutero jamais disse que a fé dispensaria a transformação do caráter; pelo contrário, a fé é exatamente o que gera uma vida transformada, cheia de frutos espirituais e boas obras.
Diante de tudo isso, podemos ver que a acusação de que o Sola Fide leva os protestantes ao inferno por não mudarem de vida é completamente infundada. A fé verdadeira sempre produz transformação, mesmo que de maneira gradual, e as boas obras não são opcionais, mas consequência natural dessa fé viva.
A questão não é que o Sola Fide encoraje o pecado, mas que ele corrige a visão errada de que podemos “comprar” a salvação com nossas ações. Quem realmente crê em Cristo não vive como antes; a fé gera arrependimento, obediência e frutos do Espírito (Gálatas 5:22-23).
Acusar o Sola Fide de “dar licença para pecar” é ignorar justamente o que a própria Escritura ensina: fé e obras caminham juntas. Como Paulo conclui:
“Porque a justiça de Deus se manifesta por meio da fé em Jesus Cristo, para todos os que creem. Não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus.”
— Romanos 3:22-24
Portanto, o Sola Fide não é desculpa para a vida pecaminosa, mas o fundamento que permite ao crente viver uma vida transformada, motivada pela gratidão e confiança em Deus, e não pelo medo ou por “pontos de mérito”. A acusação do vídeo, portanto, cai por terra frente à Bíblia e à teologia de Lutero.
Lutero adulterou a Biblia?
Como as duas acusações são sobre uma possível adulteração de Lutero em sua tradução, vamos responde-las no mesmo tópico.
Lutero nunca removeu qualquer livro das escrituras, sim, exatamente. Em sua primeira tradução da Bíblia ao Alemão, o que Lutero fez foi reorganizar os escritos. Ele separou os livros Deuterocanonicos na sessão de apócrifos, como diz ele mesmo: “Não posso colocar esses livros no mesmo nível de Moisés, Isaías ou Paulo; eles são bons para exemplo, mas não definem a fé.”. Já no Novo Testamento, ele simplesmente modificou a ordem dos escritos para o aprendizado teológico, já que essa bíblia era destinada aos leigos. Lutero organizou em três sessões:
—Livros centrais:
Paulo: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 e 2 Tessalonicenses, 1 e 2 Timóteo, Tito, Filemom e Hebreus
—Livros secundários (que não ajudam no entendimento da justificação, segundo Lutero)
Evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas, João
Atos e outras epístolas gerais: Tiago, 1 e 2 Pedro, 1, 2 e 3 João, Judas
—Apocalipse
Lutero o colocou no final, dizendo que tinha um estilo difícil de entender, mas ainda assim inspirado
Lutero nunca questionou da inspiração de nenhum livro da Bíblia (com excessão dos deuterocanonicos), mas sim, reorganizou teologicamente para o melhor entendimento do povo leigo.
E, nesse entendimento, respondo também a segunda acusação do Católico do vídeo, sobre Lutero ter adulterado a escritura. No Novo Testamento, Paulo contrasta repetidamente as obras da Lei com a fé como meio de justificação. Ele reconhece a Lei como justa e boa (Romanos 7:12), mas afirma que ninguém é justificado pelas obras da Lei, nem mesmo as mais elevadas (Gálatas 2:16). Em Romanos 3:28, no grego original, o texto diz:
λογιζόμεθα γὰρ δικαιοῦσθαι πίστει ἄνθρωπον χωρὶς ἔργων νόμου”
—“pois consideramos que o homem é justificado pela fé, sem as obras da Lei”
Lutero traduziu isso para o alemão como:
“So halten wir nun dafür, dass der Mensch gerecht wird ohne des Gesetzes Werke, allein durch den Glauben.”
—“Assim, sustentamos que o homem é justificado sem as obras da Lei, somente pela fé.”
Aqui, Lutero acrescenta a palavra “allein” (somente), que não aparece no grego, mas que ele explica ser uma convenção idiomática para enfatizar o contraste entre fé e obras, tornando a frase mais clara para o leitor leigo. O sentido — que a justificação é pela fé, sem depender das obras da Lei — permanece exatamente o mesmo do texto original.
Paulo reforça essa ideia em Romanos 4:4-5:
“Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado graça, mas dívida; ao que não trabalha, mas crê naquele que justifica o ímpio, sua fé lhe é imputada como justiça.”
— grego original: “τῷ μὴ ἐργαζομένῳ ἀλλὰ πιστεύοντι ἐκλογίζεται δικαιοσύνη”
Lutero traduz de maneira equivalente, preservando o contraste entre trabalhar e crer. Sua tradução buscou legibilidade e clareza sem alterar a teologia do texto, refletindo fielmente a exegese de Paulo: a fé é a base da justificação, enquanto as obras surgem como fruto dessa fé, não como meio de ganhar salvação.
Portanto, a famosa frase “Sola Fide” não distorce o grego; Lutero apenas enfatizou, de forma inteligível para seu público, o que Paulo já estava afirmando: a justificação é pela fé em Cristo, e não por qualquer obra humana. Traduções católicas anteriores e posteriores chegaram a expressar a mesma ideia de forma parecida, mostrando que o contraste entre fé e obras é central no pensamento paulino.
Conclusões finais
Neste texto, espero ter sido claro ao refutar as analises rasas do video do Catolico Romano e ter sido claro em minhas objeções. Agradeço a todos que leram até aqui. Neste Blog, quero postar opiniões minhas sobre assuntos teologicos e um conteudo semi-apologetico. O objetivo desse Blog também será de estudo pessoal, mostrar minhas ideias para o debate e crescimento de todos—sem contar também, a melhora da minha escrita hehe
Os proximos temas que abordarei será sobre as diferenças de cada denominação Protestante, O que dizem os Protestantes Marianos e a decadencia da Igreja Anglicana
que Deus abençoe cada um de nós, amém!
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