Como todos vocês sabem, sou um anglicano teológico — ou seja, apesar de não estar em comunhão com a Igreja da Inglaterra, me afirmo anglicano e sustento posições de um anglicanismo ortodoxo. “Converti-me” ao anglicanismo no início do ano passado, e essa conversão foi sincera. Abandonei a teologia batista reformada e me encontrei no maravilhoso Livro de Oração Comum, mais especificamente em sua versão de 1662.
Ainda sendo jovem na fé anglicana, caiu como uma bomba sobre mim a nomeação da arcebispa Sarah Mullally para o Arcebispado de Cantuária. Eu já tinha plena noção de que Cantuária é abertamente liberal, mas confesso que, ainda assim, foi surpreendente. Não pela nomeação em si, mas pelo impacto — como um cidadão que é roubado no bairro mais perigoso da cidade: o roubo não é novidade, mas ainda assim causa espanto.
Direto ao ponto: odiei sua nomeação. Não entrarei nos méritos da sucessão apostólica sacramental — não por considerá-la irrelevante, mas por motivos próprios e também por considerar que muitos dos leitores podem nem concordar com o episcopado. Portanto, prefiro permanecer em um “campo neutro”, tomando como base a moral ortodoxa da maioria dos que me acompanham. Antes, porém, é necessário apresentar quem ela é.
Sarah Mullally possui dislexia, é mestre em enfermagem, esposa e mãe de dois filhos. Tem formação clerical, foi ordenada ao diaconato, ao sacerdócio e atuou em diversas paróquias, além de exercer funções educacionais e administrativas na Igreja da Inglaterra. Em 2015, foi ordenada bispa em Crediton; em 2018, tornou-se bispa de Londres; e atualmente ocupa a Cátedra de Cantuária, após os escândalos envolvendo Justin Welby, o mesmo que a nomeou anteriormente em Londres. Sarah é vista como uma mulher gentil e conciliadora, sendo amplamente elogiada por sua capacidade administrativa e por seu envolvimento em ações comunitárias. Teologicamente, segue uma linha liberal de vertente anglo-católica. Mantém devoções marianas e ora o rosário anglicano diariamente. Em termos morais, tende a se posicionar como pró-vida, ainda que aberta ao diálogo sobre o aborto. Também se declara feminista. Sua visão sobre o casamento homossexual é ambígua: a princípio, não o considera pecaminoso, embora reconheça que o padrão bíblico tradicional seja entre homem e mulher.
Mullally também está envolvida em controvérsias. Em 2020, foi acusada de lidar de maneira ineficiente com um caso de abuso infantil, que acabou culminando no suicídio de um padre ligado ao caso. A denúncia foi formalmente analisada pela Igreja da Inglaterra, sob supervisão do arcebispo Stephen Cottrell. Houve sugestões para que renunciasse ao cargo episcopal. Ela pediu desculpas à família e reforçou políticas de combate a abusos, mas os pedidos de renúncia persistiram, embora o caso tenha perdido força pública.
Dito isso, creio que Sarah Mullally não possui o direito que reivindica, nem a capacidade de exercer esse histórico arcebispado. Sua presença já provocou um cisma significativo no anglicanismo. A Global Anglican Future Conference (GAFCON) declarou ruptura, e hoje uma parcela considerável do anglicanismo mundial não está em comunhão com Cantuária. É algo triste, sem dúvida — ainda que, talvez, um mal necessário.
A Igreja da Inglaterra, junto com seus apoiadores, reivindica para si o direito de reinterpretar as Escrituras à luz de novas agendas. Sarah e seus defensores frequentemente afirmam que o Espírito Santo os guiou a essas conclusões. É curioso notar como essas “novas luzes” parecem se manifestar apenas em determinados setores, enquanto outros, igualmente comprometidos com a fé cristã, não chegam às mesmas conclusões. Talvez não estivéssemos prontos para tais revelações.
Pessoalmente, sou mais cético em relação a isso. Creio em algo mais simples: essas igrejas, em alguma medida, assimilaram o espírito do tempo e se afastaram da fé histórica.
Um argumento recorrente entre os defensores dessas mudanças é o de que Paulo tratava de problemas específicos e locais, e que suas instruções não seriam universais. No entanto, essa linha de raciocínio, levada às últimas consequências, comprometeria todo o Novo Testamento. A carta aos Gálatas, por exemplo, foi escrita para combater o legalismo dos judaizantes que perturbavam igrejas específicas no século I. Ainda assim, não diríamos que a doutrina da justificação pela fé perdeu sua validade por ter surgido em um contexto particular.
O ponto central é que há princípios permanentes expressos em meio a circunstâncias temporárias. As situações passam, mas os princípios permanecem. Assim, ainda que os problemas enfrentados pelas igrejas de Corinto e Éfeso fossem específicos, os fundamentos utilizados por Paulo para corrigi-los continuam válidos. Entre eles, está a compreensão de uma ordem no culto e na vida eclesiástica que não inclui a liderança feminina em funções de governo e ensino.
Outro argumento comum envolve Romanos 16:7: “Saudai a Andrônico e a Júnias… os quais são notáveis entre os apóstolos”. Há debate sobre o próprio nome “Júnias”: seria masculino ou feminino? Embora haja divergências, há razões para considerá-lo masculino. Além disso, a expressão “notáveis entre os apóstolos” pode significar não que Júnias fosse um apóstolo, mas que era bem visto pelos apóstolos. Mesmo na hipótese contrária, o texto não oferece base suficiente para sustentar a existência de uma “apóstola” nos moldes dos Doze ou de Paulo.
Dessa forma, a passagem não serve como evidência conclusiva para a ordenação feminina no período apostólico. Isso se harmoniza com o fato de que Cristo não escolheu mulheres para o colégio apostólico e com outras passagens como Atos 6:1–7, 1 Timóteo 2:11–15, 1 Coríntios 14:34–36 e 1 Coríntios 11:2–16, que indicam uma distinção de papéis no contexto da igreja.
Creio que a ordenação feminina, somada ao liberalismo teológico, é um dos fatores que têm afastado os jovens ingleses. Após anos, pela primeira vez, há mais jovens católicos e evangélicos do que anglicanos na Inglaterra. Isso, para mim, é um ultraje e reflete diretamente os rumos que vêm sendo tomados.
A Igreja de Cantuária caminha para um declínio visível. Ver essa tradição entrando em certo ostracismo é profundamente triste. Surge então a pergunta: como convencer jovens católicos e evangélicos a retornarem à Igreja, se aqueles que deveriam ser seus principais referenciais demonstram fraqueza na defesa da fé?
A dificuldade é evidente. Ainda assim, há um ponto que precisa ser reconhecido: o anglicanismo, em sua essência histórica e teológica, não pertence mais àqueles que o têm conduzido nessas direções.
Nosso “protetor”, o rei Charles, ocupa uma posição que, ao menos em termos espirituais, não reflete a defesa da fé anglicana em sua forma clássica. Há uma desconexão entre o ofício que representa e a fé que deveria sustentar. Isso levanta uma questão importante.
Para ilustrar: imaginemos, em um paralelo, que um papa reivindique plenamente sua autoridade, mas, em seu íntimo, rejeite os fundamentos da fé que deveria guardar. Poderíamos considerá-lo, de fato, um papa? Evidentemente que não. Algo semelhante parece ocorrer quando líderes reivindicam posições que, na prática, não correspondem àquilo que professam.
Diante disso, como devemos agir?
Vejo três caminhos possíveis:
- Filiação a movimentos como a GAFCON, permanecendo fora da comunhão com Cantuária;
- Permanecer em comunhão com Cantuária e lutar por dentro;
- Afastar-se do anglicanismo institucional.
Como leigo, não me cabe determinar o caminho que cada anglicano deve seguir. No entanto, posso apontar aquilo que há de valioso em nossa tradição.
Os anglicanos são, em certo sentido, católicos e reformados. Somos litúrgicos e sacramentais, mas com uma identidade própria, marcada pela tradição inglesa. Somos episcopais, sérios em nossa prática e parte de uma Igreja historicamente ampla e rica.
Se alguém deseja compreender o que um anglicano crê, que leia o Livro de Oração Comum, nosso catecismo e os 39 Artigos de Fé. Foi isso que me fez amar o anglicanismo. E é justamente isso que muitos, hoje, parecem tentar diluir ou abandonar.
Ainda assim, creio que as Escrituras, o Livro de Oração Comum e a própria verdade permanecem. E, no fim, são elas que prevalecem — seja no presente, seja nos tempos vindouros. No fim, a questão não é apenas institucional, mas de fidelidade. Estruturas podem cair, lideranças podem falhar, mas a verdade que recebemos não muda. E é a ela que, independentemente do caminho que cada um tome, devemos permanecer fiéi
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